A Carqueja é uma guerreira discreta dos campos e beiras de estrada que todo mundo já viu, mas poucos realmente conhecem! Com seus galhos verdes e achatados que parecem pequenas espadas e aquele ar amargo e marcante, ela é uma daquelas plantas que a natureza desenhou para curar e proteger. No meu dia a dia, eu a chamo de “a farmácia silvestre” porque desde um chá para aliviar a má digestão até um banho para fortalecer a energia, ela está sempre pronta para dar seu jeito.
Características da Carqueja (Baccharis trimera)
A Carqueja, também conhecida como Carqueja-amarga, Carqueja-do-mato, Cacaia-amarga ou Vassoura, é um arbusto perene da família Asteraceae, nativo de amplas regiões da América do Sul, especialmente do Brasil, Argentina e Uruguai. Apresenta um porte arbustivo e ramificado, crescendo entre 50 cm a 2 metros de altura, com caules verdes, estriados e achatados (cladódios) que realizam fotossíntese, assumindo o papel das folhas verdadeiras, que são reduzidas e escamiformes. Esta adaptação morfológica confere à planta uma aparência única, com ramos angulosos que lembram pequenas espadas ou gravetos verdes.
A coloração predominante é o verde médio a escuro, com tons acinzentados em algumas variedades, e os ramos novos podem apresentar listras longitudinais mais claras. Suas flores são pequenas, discretas e de cor branco-esverdeada ou creme, reunidas em capítulos densos que surgem nas axilas dos ramos, geralmente entre o final do verão e o outono. A floração é abundante e atrai uma grande diversidade de insetos polinizadores, especialmente abelhas nativas.
Os frutos são aquênios minúsculos, dotados de um papilho de pelos brancos (semelhante a um “pompom”) que facilita a dispersão pelo vento (anemocoria). Toda a planta exala um aroma herbáceo intenso e característico, com um sabor marcadamente amargo devido à presença de compostos como flavonoides, saponinas e óleos essenciais. Esta amargura pronunciada é um dos seus principais indicativos de identidade e qualidade fitoterápica. A espécie é altamente rústica, crescendo espontaneamente em solos pobres, pedregosos e até degradados, demonstrando grande resistência à seca e ao fogo, o que a torna uma importante pioneira em áreas de recuperação ambiental.
Para que serve e quais os benefícios?
A Carqueja é reconhecida há séculos na medicina tradicional sul-americana por suas múltiplas propriedades terapêuticas, sendo empregada principalmente como hepatoprotetora, digestiva e depurativa. Seus compostos bioativos, como flavonoides (principalmente a rutina), saponinas e óleos essenciais, conferem ação anti-inflamatória, antioxidante e diurética, auxiliando no tratamento de distúrbios hepáticos e biliares, como congestão do fígado e icterícia, ao estimular a produção e fluxo da bile. Como digestivo amargo, facilita a digestão de gorduras, alivia desconfortos como azia, flatulência e sensação de empachamento, além de atuar como tônico estomacal para inapetência.
Seu efeito hipoglicemiante e regulador metabólico é documentado em estudos preliminares, mostrando potencial no controle dos níveis de glicose no sangue, o que a torna um coadjuvante no manejo do diabetes tipo 2. A ação diurética e depurativa promove a eliminação de toxinas e excesso de ácido úrico, sendo útil em casos de retenção de líquidos, gota e inflamações urinárias leves. Popularmente, é utilizada ainda como antitérmico, antianêmico e vermífugo, e seu uso externo em banhos ou compressas ajuda no tratamento de feridas, úlceras dérmicas e inflamações articulares.
No âmbito da saúde preventiva e funcional, seu perfil antioxidante combate o estresse oxidativo celular, enquanto seu potencial antiúlcera gástrica é investigado. Apesar dos benefícios, seu uso requer orientação profissional, pois o consumo excessivo ou prolongado pode causar irritação gástrica ou interagir com medicamentos hipoglicemiantes e anticoagulantes. Quando utilizada com discernimento, a Carqueja se consolida como um recurso fitoterápico valioso, acessível e ecologicamente sustentável.

Chá de carqueja
O chá de carqueja é preparado utilizando as partes aéreas da planta (ramos e folhas), preferencialmente secas e trituradas, para uma melhor extração dos princípios ativos. Para uma xícara (200 ml), utilize 1 colher de sopa (cerca de 2 gramas) do material vegetal seco. Coloque a carqueja em uma vasilha não metálica (como vidro ou cerâmica), despeje água fervente sobre ela, tampe e deixe em infusão por 5 a 10 minutos. Coe em uma peneira fina e beba ainda morno.
O sabor é intensamente amargo e herbáceo, característico da planta. Para consumo contínuo, a orientação tradicional sugere até 3 xícaras ao dia, preferencialmente 30 minutos antes das refeições principais para aproveitar seus efeitos digestivos e hepatoprotetores. O chá não deve ser adoçado com açúcar refinado, pois isso pode interferir em suas propriedades; se necessário, utilize uma pequena quantidade de mel puro ou estévia.
Para uso externo, como em compressas para feridas ou inflamações cutâneas, prepare uma infusão mais concentrada com o dobro da quantidade de planta e aplique com um pano limpo sobre a área afetada. O chá preparado deve ser consumido no mesmo dia, evitando armazenamento prolongado, pois seus compostos ativos podem oxidar. Esta bebida centenária, quando utilizada com moderação e respeito às suas contra indicações, é um grande aliado da saúde gastrointestinal e da detoxificação hepática.

Como cultivar passo a passo
O cultivo da Carqueja inicia-se com a obtenção de material vegetal, preferencialmente por meio de estacas semilenhosas retiradas de plantas saudáveis e maduras, já que a propagação por sementes é menos eficiente devido à baixa taxa de germinação e à necessidade de quebra de dormência. As estacas, com cerca de 15 a 20 centímetros de comprimento, devem ser preparadas removendo as folhas basais e tratadas com um agente enraizador à base de ácido indolbutírico para acelerar o desenvolvimento radicular. O plantio pode ser realizado diretamente no local definitivo ou em recipientes provisórios contendo um substrato arenoso e bem drenado, composto por uma mistura de terra comum, areia lavada e composto orgânico em partes iguais.
A escolha do local de plantio é determinante para o desenvolvimento da planta. A Carqueja é uma espécie heliófila, exigindo sol pleno para crescer com vigor e produzir seus princípios ativos de forma otimizada. Quanto ao solo, ela demonstra notável adaptabilidade a condições pobres e áridas, desenvolvendo-se bem em solos arenosos, pedregosos e até degradados, desde que apresentem boa drenagem. Solos muito argilosos ou sujeitos a encharcamento devem ser corrigidos com a adição de areia grossa e matéria orgânica para evitar o apodrecimento das raízes.
Os cuidados de manejo são mínimos, refletindo a rusticidade da espécie. A irrigação deve ser moderada, mantendo o solo ligeiramente úmido apenas durante a fase de estabelecimento das mudas, que dura cerca de um mês. Uma vez enraizada, a planta torna-se altamente tolerante à seca, necessitando apenas de regas esporádicas em períodos de estiagem prolongada. A adubação não é essencial em solos com alguma fertilidade natural; em solos muito pobres, uma aplicação anual de composto orgânico ou esterco bem curtido na base da planta é suficiente.
A colheita dos ramos para uso medicinal é realizada durante o período vegetativo ativo, preferencialmente antes da floração, quando a concentração de princípios ativos está mais elevada. Corte os ramos superiores com tesoura limpa, deixando sempre uma parte da planta para garantir sua rebrota. Para o cultivo responsável, é importante conter sua expansão natural, pois a Carqueja pode se tornar invasiva em algumas condições. A poda de contenção após a floração, removendo as estruturas com sementes, e o monitoramento de brotações voluntárias no entorno são práticas recomendadas para um manejo sustentável desta valiosa espécie medicinal.
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